quinta-feira, 19 de abril de 2018

Viver em Sesimbra...


(Final de tarde na Praia de Sesimbra)

Tanto eu como a Sara não somos naturais de Sesimbra (eu sou de Benfica - morava mesmo ao lado do sítio onde o Simão vai trabalhar durante uns anos - e a Sara é de Cascais) e, por isso, o facto de termos vindo para cá viver significou uma ruptura com rotinas e contextos a que estávamos habituados desde sempre.

Antes de mais, convém fazer aqui uma chamada de atenção: nós não moramos, mesmo, em Sesimbra! Moramos numa povoação que fica a 5 minutos do centro da vila, e isto pode parecer rídiculo uma vez que, originalmente, Sesimbra era uma aldeia de pescadores, mas que, naturalmente, tem vindo a ver os seus limites serem alargados; mas, para os locais, estas questões são muito importantes. É que, para os Pexitos (habitantes de Sesimbra), só é verdadeiramente de Sesimbra quem mora desde a linha do mar até determinado ponto na estrada... Quem mora para cima desse ponto (que fica, praí, a 600 metros do centro da vila) não é Pexito, mas sim Camponês (vive no campo...). É claro que, para um Pexito, ser Camponês é algo depreciativo e o contrário também é válido. Consta que antigamente havia grandes cenas de porrada entre Pexitos e Camponeses...

Bem, hoje em dia as coisas estão mais diluídas e já não ha cenas de pancadaria, mas continua a haver acesas discussões nos cafés entre Pexitos e Camponeses. Nós, como não somos daqui, consideramos que, a partir da Rotunda da Nato, já não estamos na "Margem Sul", que já é Sesimbra e, por isso, somos todos Pexitos.

É engraçado porque lembro-me perfeitamente, quando tinha 20 e poucos anos, de estar a voltar da Caparica, após um dia de praia durante a semana, olhar para o trânsito para sul, na ponte, e pensar:

"- Porra!! Nunca hei-de morar na margem sul!!!!

De qualquer forma, como já disse, Sesimbra já não é bem "margem sul" e assim, neste momento, eu e a Sara somos os maiores defensores do "viver em Sesimbra" que conhecemos. Acho, mesmo, que nós gostamos mais disto do que qualquer Pexito "original"!!

Isto é, de facto, o paraíso na Terra! 

Estamos a 40 minutos de Lisboa, o que nos permite continuar a ter vida social com amigos que continuam a viver por lá (coitados...); temos grandes restaurantes (o nosso grande vício...) onde podemos apreciar desde o tradicional e descontraído peixe grelhado, no Lobo do Mar ou no Pintarola, à cozinha de autor no Bar da Padeiria; temos uma praia soalheira (virada a Sul) - há lá coisa melhor do que passar o dia inteiro na praia e ao final da tarde ir jantar ao Portofino ou sentarmo-nos na esplanada do Ribas para beber uma caipiroska e jantar, ainda com areia nos pés, a sabermos que, quando quisermos ir para casa, estamos a 7 minutos de distância? Temos a Praia do Ribeiro do Cavalo; temos o Carnaval (O Carnaval Pexito); temos a Lagoa de Albufeira e o Meco, com o Bar do Peixe e com o Gula, onde os nossos putos ficam a dormir, tapados com mantas, nos sofás, para os pais poderem ficar um pouco até mais tarde a jantar com amigos; temos os croissants do Liansini; temos a Festa do Castelo; temos uma casa grande, com jardim e uma pequena piscina, ao preço de um T0 em Telheiras; temos os miúdos a brincar na rua, a andar de bicicleta ou a jogar à bola (o Simão...) de uma forma tranquila; temos, acima de tudo, uma qualidade de vida impagável e irrepetível em mais lado nenhum.

É claro que quando cá chegámos tivemos de nos adaptar às especificidades e idiossincrasias da Vila e dos Pexitos...Uma das coisas a que achei logo imensa piada é o facto de toda a gente se tratar por tu (como calculam, a Sara achou muito estranho porque é de Cascais... - estou a brincar, ok?...ela é de Cascais, mas de um bairro social...)! Achei engraçadíssimo ir à farmácia pedir uma caixa de comprimidos para as dores de cabeça e o farmacêutico dizer-me:

"- Queres a caixa com 10, ou a caixa com 20 comprimidos?"
...
...
...
"- Olha... Tanto faz... escolhe tu!"

Um gajo sente logo que está ali família!


Também nos tivemos de adaptar ao sotaque e aprender algumas das expressões típicas Pexitas. Por exemplo, dizer "Atão, soce? ou "Ah, ganda balhão!!" faz parte da herança cultural Pexita e toda a gente que queira ser Pexito tem de as dizer de tempos a tempos. 

Outra das expressões que me chamou logo a atenção foi a forma como dizem "Olha lá..." por tudo e por nada. É um "Olha lá" com diversas entoações, de acordo com o contexto. Se estiverem a ver um bebé no ovinho, é um "Olha láaaa..." assim mais arrastado; se estiverem a começar uma conversa é um "Olha lá!" mais assertivo... Enfim, varia muito, mas o "Olha lá" é obrigatório!

Alguns amigos meus, indígenas, queixam-se do facto de ser uma vila pequena e de toda a gente se conhecer. Argumentam, eles, que esse facto retira algum do anonimato que às vezes queremos ter em público.

Em percebo que essa proximidade pode tornar difícil a resolução de alguns conflitos e potenciar surgimento de outros, mas nós, que não somos de cá, nem temos cá nenhuma história familiar, achamos giríssimo saber o nome de toda a gente que trabalha nas Finanças.


Sesimbra acontece!

 (Praia da Ribeira do Cavalo)


(Sesimbra by nigth)

sábado, 14 de abril de 2018

Os filhos e as notas da escola...


Recentemente publiquei uma fotografia de um dos trabalhos de casa da Alice e isso fez-me lembrar algumas das conversas que temos tido, com amigos nossos, sobre a importância de os miúdos terem boas notas na escola.

Claro que este tema só se aplica à Sofia e à Alice que estão no 5º e 1º ano, respectivamente.

Relativamente ao Simão e à Petra, o grande objectivo escolar passa por não apanharem muitas bronquiolites e não morderem ou serem mordidos pelos coleguinhas da sala (como é óbvio, o Simão nunca é mordido...Forte, o meu filho!!!!) - acho que as educadoras da creche vão-me matar por ter dito isto...

Já aqui escrevi (https://omeupaieodarthvader.blogspot.pt/2018/03/vida-de-casal-com-4-filhos.html) que, relativamente às duas mais velhas, nós procuramos transmitir o máximo de autonomia e, consequentemente, de responsabilidade.

A Sofia, sempre que chega a casa, tem 1 hora para fazer os trabalhos de casa e rever a matéria que foi dada. Já a Alice só faz os trabalhos de casa e, a seguir, pode ir brincar.

Não estudamos com elas e só intervimos se tiverem dúvidas. Nas vésperas de testes, às vezes, fazemos perguntas sobre a matéria que vai sair (acontece mais com a Sofia).

Nós não somos românticos ao ponto de acharmos que ter boas ou más notas seja indiferente. Pelo contrário! Vivemos num mundo cada vez mais competitivo e é óbvio que o sucesso académico pode ser uma arma distintiva na obtenção da carreira profissional que eles escolherem. Também achamos que os hábitos de estudo devem ser adquiridos desde cedo.

De facto, nós exigimos que eles (elas, neste caso) tenham boas notas e a verdade é que têm tido. Normalmente são alunas de quatros e cincos.

É claro que os miúdos não são todos iguais e, porventura, com o Simão e a Petra poderemos ter necessidade de ter uma abordagem diferente de forma a que consigam atingir os objectivos académicos que nós achamos importantes. Aliás, já com a Sofia e a Alice nós temos diferentes posturas porque elas são completamente diferentes na forma como se organizam na escola. A Alice é muito focada e assim que chega a casa, sem ninguém lhe dizer nada, senta-se a fazer os trabalhos. Chora se não pode fazer os trabalhos das férias logo no primeiro dia. É muito despreocupada e confiante com as notas que tem na escola. No outro dia estava a sentir-me culpadíssimo porque ela foi para a escola e só depois é que reparei que tinha teste. Não lhe desejei boa sorte, não lhe fiz perguntas, não lhe dei conselhos, nada... Quando a fui buscar perguntei-lhe como é que tinha corrido e se tinha respondido a tudo:

"- Respondi a tudo e respondi a tudo bem!", foi a resposta dela.

Tranquilo...

Já a Sofia é muito mais despassarada. Distrai-se com tudo e mais alguma coisa, é capaz de não saber (se nós não lhe dissermos) que tem teste no dia seguinte e, se puder fazer os TPC nos últimos 10 minutos do último dia de férias, melhor.

A questão que se coloca é se elas não poderiam ter melhores notas (tudo 5, por exemplo) se nós estudássemos com elas, ou se estudassem de forma mais vincada antes de um teste. À partida seria lógico que isso acontecesse. No entanto, no deve e no haver da coisa, nós consideramos que aquilo que se perde para conseguir esse objectivo é muito superior àquilo que se ganha. Ou seja, se elas já conseguem ter notas muito aceitáveis com aquilo que retêm nas aulas e com um reforço mínimo quando chegam a casa, não consideramos positivo que elas abdiquem de mais tempo livre, de forma a conseguirem ter notas ainda melhores. Haverá um tempo para isso... A exigência académica e o tempo dedicado ao estudo, na nossa opinião, deve ser gradual (na faculdade devem estudar mais do que no secundário, no secundário devem estudar mais do que no preparatório, e, no preparatório , devem estudar mais do que na primária). Ora, se na primária já tiverem de estudar 3h por dia, quantas é que vão estudar no faculdade?

Neste sentido, não consigo perceber muito bem a utilidade ou a mais valia de uma ferramenta como o Quadro de Mérito, nestas idades. É claro que pode ser uma forma de homenagear alguns alunos que, pela sua capacidade e disciplina, se destacam e obtêm excelentes notas, mas, por outro lado, também me parece uma forma de incentivar o excesso de horas (desajustadas, na nossa opinião) dedicadas ao estudo, simplesmente com o objetivo de "entrar"no Quadro de Mérito, o que, acima de tudo, faz bem ao ego dos pais.

(Sofia, no 1º Ano, a dormir em cima dos TPC)


sábado, 10 de março de 2018

Vida de casal com 4 filhos?



Tem sido comum, em conversas com amigos, surgir o tema de nós procurarmos, com 4 filhos, conjugar o nosso papel de pais com o facto de continuarmos a ser um casal que procura manter uma vida social activa, que janta fora, que viaja a dois, etc.

De facto, como já aqui referi (https://omeupaieodarthvader.blogspot.pt/2017/09/ferias-sem-filhos-por-favor-sim.html), é importante para o nosso equilíbrio enquanto casal, salvaguardar alguns momentos em que "deixamos" mentalmente de ser pais e passamos a ser, exclusivamente, namorados, companheiros e confidentes. Em última análise, isso traduz-se numa relação marital mais saudável que depois também tem reflexo na nossa relação com os miúdos.

Há, de facto, algum estigma associado a este nosso comportamento; como se o amor que se tem aos filhos fosse diretamente proporcional ao sacrifício da vida própria que o casal tem de fazer para cuidar e educar os filhos.

Comentários como "O meu filho dormiu na nossa cama até aos 4 anos!" ou "Jantar fora sem os miúdos? Nunca! Onde eu vou, eles também vão!" são, muitas vezes, utilizados como medalhas por mães, ou pais, que não parecem achar compatível o papel de progenitor com o de mulher ou marido.

Bom... cada um sabe de si, mas nós não pensamos assim... Ninguém gosta dos seus filhos mais do que nós, ninguém se preocupa com o seu bem estar mais do que nós, ninguém deseja que eles tenham o melhor do mundo mais do que nós. Simplesmente não achamos que seja preciso (ou saudável fazê-lo) abdicar da vida de casal para isso acontecer.

Como é que temos conseguido, então, conjugar essas duas facetas?

Eu creio que, acima de tudo, através das rotinas que instituímos desde que eles são muito pequenos. Isso permite, por um lado, desenvolver comportamentos, autonomias e percepções nos miúdos, que nós julgamos os mais indicados; e, por outro lado, permite-nos, a nós, regular as nossas necessidades e desejos em função dessas rotinas.

Pequenos exemplos:

Todos os nosso filhos passam a dormir no quarto próprio por volta dos 4 meses - Esta é uma grande conquista para nós. Recuperamos um tempo e um espaço que é nosso, com tudo o que daí advém. Não quer dizer que quando estão doentes não durmam na nossa cama, ou que ao fim de semana, de manhã, não haja um verdadeiro acampamento no nosso quarto, mas, em regra geral, cada um dorme no seu quarto desde os 4 meses.

Vão todos para a cama, em dia de escola, às 21.30h - também aqui entram pequenas rotinas que ajudam a consolidar a grande rotina de deitar: habituámo-los desde bebés a nunca os adormecermos ao colo; depois de deitados já não saem da cama (se choram, damos uma festinha e um miminho, mas voltamos a pôr a chucha e a aconchegar sem os tirar da cama) e nós saímos do quarto; às 21.15h vai tudo lavar os dentes e fazer xixi, deitam-se, eu conto uma história (as mais velhas já leem sozinhas), apagam a luz e dormem. 

Também estão habituados a, desde bebés, irem dormir a casa dos avós, numa das noites do fim de semana (e é, sem dúvida, o ponto alto da semana dos putos... jantam bolachas de chocolate e tomam chupa-chupas ao pequeno almoço...), ou a ficarem cá em casa com uma babysitter. Como o fazem desde cedo, não estranham dormir fora de casa, o que para nós significa uma noite de sono completo e profundo.

E depois há um conjunto variado de outras rotinas que não estão directamente relacionadas com o tempo que nós temos para nós, mas que, ao serem instituídas conferem autonomia e segurança aos miúdos e em paz de espírito para nós: as mais velhas (10 e 7 anos) acordam sozinhas, vestem-se (a roupa fica pronta de véspera) e preparam pequeno almoço e o lanche que levam para a escola sozinhas; põem e tiram a mesa de jantar; quando chegam a casa vão fazer os trabalhos da escola autonomamente (só nos chamam se precisarem de ajuda); comem sozinhos desde os 2 anos (sopa e tudo).

Estas pequenas dinâmicas ajudam-nos a manter as coisas oleadas e a funcionar relativamente ao dia a dia, mas quando temos algo que saia fora daquilo que são os nossos hábitos diários (como ir de férias) também é na definição de rotinas que nos refugiamos para conseguir ultrapassar com sanidade o facto de irmos 15 dias para a praia com 4 putos (https://omeupaieodarthvader.blogspot.pt/2017/08/como-ir-de-ferias-com-os-4-putos-sem.html).





domingo, 18 de fevereiro de 2018

Sugestões para ir de férias?



Bom, como já aqui publiquei (https://omeupaieodarthvader.blogspot.pt/2017/09/ferias-sem-filhos-por-favor-sim.html), eu e a Sara, todos os anos, no final de Agosto, fazemos questão de tirar uma semana de férias os dois sozinhos, sem crianças, de forma a conseguirmos ouvir os próprios pensamentos durante uns dias e recarregarmos baterias.

O nosso destino de eleição é o México, mais concretamente a Riviera Maya (já lá fomos uma dezena de vezes). Tem tudo o que nós procuramos numas férias: mar e sol; diversão e espírito "Caribe Mix"; e possibilidade de se sair do hotel e experimentar coisas diferentes (mergulho em cenotes, safaris na floresta tropical, etc.). 

Dirão os haters: "Ah, férias num resort? Com pulseirinha? Andar em rebanho? Tão mainstream..."
Olhem, como diz a outra: Pizzas pós haters!!

Comemos à hora que queremos, dormimos à hora que queremos, saímos do hotel quando queremos, fazemos a vida que queremos.
Os dois. Nem percebo isso do rebanho...

Enfim, é este o registo que gostamos e é neste registo que queremos continuar. 

Quando pomos em cima da mesa outras possibilidades, com custos similares, preferimos sempre o México. Dá-nos a segurança de sabermos ao que vamos e de ter a garantia de gostarmos do que vamos encontrar.

De facto, já procuramos variar e demo-nos mal... Num destes anos resolvemos ir às Maldivas e foi a maior seca da nossa vida. O mar é maravilhoso, mas assim que se sai de dentro de água não há nada para fazer. Damos a volta à ilha em 15 minutos! Uma pasmaceira total!

Portanto, a questão é: por valores semelhantes (1200-1500 euros/pessoa) voltamos para o México; mas e por valores bem mais baixos (800 euros/pessoa)? 
Para onde é que podemos ir por estes valores (finais!!) que tenha mar (mergulho), boas praias e diversão?

Sugestões?










sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Como Preparar, de manhã, 4 Filhos Para a Escola


É muito raro conseguirmos estar os dois de manhã para dividir a logística de preparar e levar os 4 putos à escola. Normalmente alternamos os dias e, enquanto um sai de casa para ir trabalhar, o outro fica com essa responsabilidade.

Esta 5ª feira foi o meu dia...

A preparação começou na véspera com a Sara a deixar a roupa de cada miúdo preparada nos respectivos quartos, como faz quase todos os dias (quando ela se esquece ou não pode, e sou eu a escolher a roupa, vai tudo para a escola de fato de treino...).

Às 7.20h tocou o despertador da Sofia que se deixou ficar na cama até às 7.35h, a pensar naquelas coisas importantíssimas em que a Sofia pensa todos os dias: porque é que as árvores têm folhas? Porque é que não há ornitorrincos em Portugal? Se os gatos falassem o que é que diriam? Etc.

Às 7.30h acordámos nós. A Sara vestiu-se, tomou o pequeno almoço e saiu, e eu preparei-me para o pior.

Fui buscar o Simão à cama e como reparei que a fralda estava a abarrotar e fui à gaveta buscar uma fralda nova.

"Porra, só há mais uma fralda!!!!! Como é que não vimos isto ontem??? É melhor não mudar já... O miúdo ainda pode fazer algum cocó matinal e depois não tenho fralda para o mudar, antes de o levar para a escola", pensei eu...

Nesta altura reparei que a Sara não tinha escolhido a roupa do Simão, de forma que tive de escolher umas calças, uns ténis, uma camisa, uma camisola e um casaco.

Comecei a ficar com calor e despi  a sweat-shirt...

Por esta altura já a Petra tinha acordado e gritava do seu quarto:
"- Papá, vem me buscá!!! A Peta já acodou!!! Papá!!!! Papá!!!"

Agarrei na Petra com um braço enquanto segurava o Simão com o outro, pus a roupa dos dois em cima do ombro, agarrei nos sapatos com os dentes e desci lá para baixo.

A Sofia está sentada a comer os cereais com o cabelo a parecer um mau dia da Amy Winehouse.

"- Sofia, não te penteias???"
"- Já me penteei, pai!!"
...

A Alice começa a descer a escadas e vem vestida de bailarina, com uma saia de tule, uma t-shirt cor de rosa e sandálias (e brincos de mola pendurados que nos obrigou a comprar...).

"- Alice???!!! O que é isso???? Onde é que está a roupa que a mãe escolheu???"
"- Papá...olha...eu gosto mais desta..."
"- Estás louca!!!????? Está um frio de rachar lá fora!!!! Vai vestir a tua roupa!!!
"- Mas, papá...."
"- Alice!!!!"
"- Mas, papá...."
"- Alice!!!! Já!!!"

Tirei a t-shirt e as meias e fiquei descalço e em tronco nu. Estavam 6 graus lá fora.

Preparei os cereais da Petra e o biberão do Simão. A Petra sentou-se à mesa a comer e deitei o Simão no sofá; acomodei-lhe o biberão com uma manta e deixei-o lá.

Aproveitei a acalmia dos dois mais novos e fui pentear o cabelo da Sofia que refila e queixa-se a cada movimento da escova.

Às 8.10ha sofia está despachada e sai de casa para ir para a escola de boleia com uma vizinha.
Às 8.13h a Sofia volta para casa porque se esqueceu de preparar o lanche e volta a sair às 8.17h.
Às 8.19h a Sofia volta para casa porque se esqueceu de me pedir dinheiro para carregar o cartão e volta a sair às 8.21h.

As aulas começaram às 8.20h.

A Alice desce as escadas muito contrariada porque não a deixei ir para a escola de tutu e senta-se a comer os cereais.

Vou buscar o Simão ao Sofá. Parece que metade do biberão lhe escorreu pelo pescoço, mas acho que não faz muito mal, porque a seguir vou-lhe mudar a roupa. Limpo com um toalhete e sigo.

Cheira-me um bocadinho a cocó.... "Ok, o Simão já deve ter feito cocó... vou esperar até mais perto da hora de sair de casa para o mudar", pensei.

Visto a Petra e mando Alice para a casa de banho lavar a cara e os dentes. Entretanto, o Simão não pára de chorar e dou-lhe uma bolacha para ver se ele se acalma.

Lavo a cara e os dentes à Petra e o Simão continua a chorar. Olho com mais atenção e vejo que o miúdo tem as calças e a barriga do pijama todas molhadas e acastanhadas. Não augura nada de bom...

Ok... O Simão fez uma borrada de dimensões épicas!!! Transbordou a fralda que já estava a abarrotar de xixi e escorreu para a barriga e pelas pernas.

Dispo o Simão e vou para o lavatório lavá-lo.

A Petra começa a chorar porque a Alice não a deixa brincar com um boneco que diz ser dela e que já não usa desde 2014.

Já lavei o Simão e vou vesti-lo.
A roupa que escolhi não lhe passa na cabeça.
Grito para a Alice parar de chatear a Petra e para ir lá acima buscar uma camisola qualquer para o Simão.
Os ténis que escolhi não lhe servem.
Grito para a Alice parar de chatear a Petra e voltar lá acima buscar uns ténis quaisquer para o Simão.
A Alice refila comigo.

Consigo vestir o Simão, vou à casa de banho lavar-lhe a cara e os dentes, visto-me, lavo a cara e os dentes, penteio a Alice e a Petra, e mando tudo para o carro.

Sento os miúdos no carro, prendo tudo com os cintos de segurança e quando me preparo para arrancar a Alice diz-me:
"- Papá, preparaste-me o lanche?"

Saio do carro, entro em casa, preparo o lanche e volto para o carro.
A Petra e o Simão estão a chorar porque eu saí do carro.

Arranco para os deixar na escola.

E o que é que esta 5ª feira teve de especial?

Nada...

Foi um dia igual aos outros.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ainda sobre os YouTubers...


Já aqui tinha mencionando a minha perplexidade com o sucesso que estes gajos, que fazem vídeos para o Youtube a debitar banalidades, têm com crianças e adolescentes ("E Quando As Minhas Filhas Forem Pré Adolescentes?").

Vem isto a propósito da recente polémica que se levantou quando um desses youtubers sugeriu que a melhor maneira de não ir à escola seria mandar a mãe para o c*** quando ela o/a fosse acordar de manhã (neste caso até tenho de lhe dar razão... qualquer filho meu que fizesse isso, não iria à escola nesse dia, e, muito provavelmente, durante o mês seguinte - não sei muito bem quanto tempo é que as nádegas demorariam a cicatrizar...). O Nuno Markl e a Ana Galvão escreveram um texto e parece que metade da internet (a que tem menos de 14, anos e/ou de QI) lhes caiu em cima a criticar.

Cá em casa também tivemos de resolver esse assunto e fizemo-lo da mesma maneira que fazemos sempre que passa qualquer coisa na televisão que não achamos apropriado para crianças: proibimos! Acabaram-se os youtubers (já há algum tempo...)!

Dir-me-ão vocês: "- Ah, mas proibir não resolve porque podem sempre ver na escola com os colegas!!"

É verdade... mas o mesmo se passa com a televisão. Nós podemos proibir os miúdos de verem o "Rambo III" porque achamos muito violento e, no dia seguinte, eles vêem o "Massacre no Texas" no tablet de um colega qualquer de escola.

A questão aqui é que, ao proibirmos e explicarmos porque é que o fazemos, eles percebem que os pais não aprovam e porquê. Se depois optarem por desobedecer (e eu gosto de acreditar que não o fazem), sabem que estão a ter um comportamento que nós não aprovamos e que, se nós soubermos, terá consequências.

De qualquer forma, para ser sincero, muito mais do que a boçalidade dos conteúdos (nós também víamos coisas horriveis - eu via os "Três Duques"...), preocupa-me a incrivel valorização daqueles conteúdos e comportamentos. O endeusamento dos youtubers, a valorização social da estupidez (a Sofia já me veio dizer que vivem todos numa casa de 300 milhões de euros e que ganham todos 10 milhões de euros por mês, etc.) é de tal forma visível que, hoje em dia, todos os miúdos querem ser youtubers como "eles". E é isto que eu acho grave e preocupante: a incapacidade dos miúdos distinguirem entre algo que é entretenimento, e que não deve ser imitado; e um comportamento socialmente ajustado. Nós podíamos adorar o "Massacre no Texas", mas percebíamos que andar com uma moto-serra a dilacerar pessoas no meio da rua não era, propriamente, o mais indicado para se fazer num domingo à tarde...


sábado, 30 de dezembro de 2017

Quanto custa criar um filho...ou 4?


Aqui há uns anos, quando eu ainda era um jovem inconsciente, tive uma conversa com um amigo, muito mais ajuizado do que eu, em que ele me disse: 
"- Olha lá, tu que tens a mania que queres ter filhos, tens a noção de quanto é que custa criar uma criança?"
"- Eu não!! Porquê? É muito dinheiro?"
"- Olha que são dezenas de milhar..."
"- Tás louco!!! Então se eu tiver dois filhos, gasto 40.000 euros a criar 2 crianças, queres ver? Não pode ser!!

...

Pois... 2 filhos... era tão inconsciente...  

Vem isto a propósito porque, recentemente, começámos a achar, aqui em casa, que andávamos a gastar uma pipa de massa em supermercado. Para perceber o que é que se estava a passar resolvemos, durante um mês, guardar todos os recibos, de todas as compras que fizéssemos no supermercado. No final do mês só tínhamos de somar tudo e ficávamos com a noção exacta de quanto é que tínhamos gasto.

Passados, então, 30 dias, tivemos a seguinte conversa:

"-Tens ideia de quanto é que gastámos este mês?"
"- Não sei... 300 euros? ... Mais?"
"- Não tens mesmo noção nenhuma..."
"- Mais de 300 euros?? 400?"
"- 830 euros"
...
...
...
"- Não pode ser... Viste mal!! Alguma vez???? Viste mal!!!"
"-  830 euros"
"- Epá, como é que é possível????? O que é que comprámos??? Comprámos alguma coisa de especial??? Isto não pode ser!!!!!!"

O problema é que não comprámos mesmo nada de especial. Fizemos o que fazemos sempre...Não fizemos nenhum planeamento, não pensámos no sítio onde iríamos fazer as compras, não procurámos promoções... Simplesmente fomos comprando à medida das nossas necessidades e no local que nos era mais cómodo, em determinado momento.

É claro que quando estamos a falar de uma casa onde, por semana, se comem quase 80 peças de fruta, se bebem 12 pacotes de leite, se consomem 21 iogurtes e 12 rolos de papel higiénico, só para citar alguns exemplos, estas decisões de compras impulsivas assumem contornos catastróficos.

Assim sendo, a minha linda e mui organizada mulher meteu mãos à obra e elaborou uma completa e detalhada folha excel, onde registámos e planeámos as nossas compras semanais. Para além disso, mudámos o local das compras (deixámos o Continente e tornámo-nos clientes do Lidl) - isto só foi possível a partir do momento em que conseguimos planear e fazer as compras todas da semana no mesmo dia.

O resultado foi-nos muito favorável; baixámos dos 830 euros para perto dos 600 (150 euros/semana), o que não deixa de ser uma fortuna, mas creio que, com 4 putos, dificilmente conseguiremos baixar mais...

Folha Excel compras Pessoashians

Portanto, esta brincadeira do supermercado deixou-me a pensar se o meu amigo não teria razão...

Vejamos: 600 euros em supermercado, por mês, dá 100 euros por cada puto, ou seja 400 euros/ mês no total dos 4 putos. Mais 400 euros/mês em escola (atenção que nenhum anda numa escola privada!! Escola pública e IPSS para os dois mais novos!!!); mais 800 euros/ ano em livros e material escolar, para os 4; mais 500 euros/ ano em consultas médicas e medicamentos para os 4 (assumindo que se mantém sem grandes doenças como tem sido até agora); mais 600 euros/ ano em roupa e sapatos para os 4 (quero que as miúdas se lixem!!!! Não gasto nem mais um tostão!!!); mais 600 euros/ano em desporto, música e actividades extra-curriculares.

Vejamos então ao ano, quanto me custam os 4 filhos: 4800 (supermercado) + 4800 (escola) + 800 (livros e material escolar) + 500 (médicos) + 600 (roupa e sapatos) + 600 (extracurriculares) = 12.100 euros/ano
12.100 euros
12.100 euros
...
Assumindo que não chumbam ano nenhum, devem acabar o curso lá para os 24 anos.
Ora 24 x 12.100 euros = 290.400 euros
290.400 euros!!!!

A minha casa não vale tanto!!!!!

Podia comprar um Aston Martin com esse dinheiro!!!!

Simão, meu querido filho; meu único filho macho; meu único filho com hipóteses (largas) de ser um extraordinário jogador de futebol.... Simão, preciso de ti!!!!!